OS MELHORES JÁ PUBLICADOS- Equivocos do Etnocentrismo

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* Por: Paulo Henrique Resende Alves (

-->paulohrra@gmail.com)
    Conceitos da Antropologia Cultural podem ser ferramentas valiosas para profissionais de saude que trabalham em contextos culturais diferentes de suas proprias referencias. Isto porque, ao analisarmos diferentes expressões do humano, inclusive  quando relaçionadas a saude e doença, não podemos deixar de lado a sociedade e a cultura nas quais o sujeito esta inserido e das quais ele é tambem um agente de transformação.
     O conceito de cultura aqui aplicado  não se refere a um mero atributo do humano, pois é algo que é parte de sua essencia e é que o diferencia de outros seres vivos.  A expressão “ser falante “, cunhada por Lacan, sintetiza bem a questão e marca uma profunda diferença em relação a noção que se refere ao “ser que fala”.
   Um exemplo a ser discutido no presente artigo é a chamada circunsisão feminina, costume que horroriza a mentalidade ocidental mas que ainda é uma tradiçao em varios paises da África, principalmente do norte.Usualmente não se leva em conta o contexto simbólico de tal rito e o assunto é tratado como um barbarismo a ser banido de uma hora para a outra.
 Na Somália, país cuja  tradição é de se praticar a chamada circuncisão faraônica - ato que consiste na remoção não somente do clitoris mas tambem dos labios menores e parte dos labios maiores – uma mulher local  afirmou  a uma medica brasileira, que no inicio de 2008 lá prestava serviços humanitários, algo que merece reflexão: em conversa informal disse que os orgãos genitais de uma mulher não circunsisada se pareciam com os de uma vaca.
  Tal afirmação, estranha e absurda para nossos valores, revela a importancia da circuncisão na construção da identidade psicológica e social naquela cultura. A hipótese de uma adoescente somali não se submeter a intervenção  a colocaria  mais próxima da natureza – uma vaca – do que da cultura (atributo inerente ao humano). Para os somalis a circuncisão faz parte de um rito de passagem essencial para que uma mulher se torne adulta. É essencial para que ela possa postular o matrimonio, procriar, ou seja, um passo decisivo para a integração feminina naquela sociedade. 
 Jomo Kenyatta, heroi da independencia e, a partir de Dezembro de 1963, primeiro presidente do Quenia,  estudou antropologia na Universidade de Londres. Em 1938 escreveu uma monografia que revelou vários aspectos da vida e os costumes da etnia dos gikuius, a qual pertencia. Publicada em livro, com uma elogiosa introdução  de um de seus professores, B. Malinowsky, tem um capítulo dedicado a esclarecer o significado cultural, para aquela etnia, da circunsisão de adolescentes de ambos os sexos. Vale a observação de que, no caso, diferentemente dos somalis, a circuncisão feminina significava unicamente a remoção do clitoris.
“O real argumento não se baseia na defesa da cirurgia em si, ou de seus detalhes, mas no entendimento de algo muito importante na psicologia tribal dos Gikuiu. Ou seja, o fato de que a cirurgia é ainda vista como a própia essencia de uma instituição que tem uma enorme implicação educacional, moral e religiosa. Até o presente momento é impossivel para um membro da tribo imaginar um contexto social sem a clitoridectomia. Por isso, para os Gikuiu, a abolição da cirurgia significaria a abolição da instituição como um todo.”  “ A iniciação, para ambos os sexos, é o costume mais importante entre os gikuiu. Ela é vista como um passo decisivo para os adolescentes atingirem o status de masculinidade ou feminilidade na comunidade dos gikuius. Este costume é seguido pela vasta maioria dos povos africanos.”(1, tradução do autor).
Uma das premissas existentes em pesquisas antropológica é de que sociedades e culturas são melhor entendidas quando analisadas como um todo, sistemicamente, e abordagem similar pode ser utilizada por aqueles que trabalham com assistencia a saude. Ao não considerarem o conhecimento e as potencialidades das comunidade assistidas aqueles que trabalham na saude correm um grande risco, mesmo que involuntàriamente, de atuarem de maneira paternalista e opressiva.    
Um bom exemplo é o daqueles que consideram a medicina indígena uma prática equivocada e que tentam incutir nas comunidades, sem maiores cuidados, as razões do modelo biomedico científico ou de um modelo de psicologia bem aceito em seus países – ou extratos sociais - de origem. Tais modelos tendem a ser tomados  como os verdadeiros, enquanto a etno- medicina não científica é tida como uma prática menor e/ou simplesmente superticiosa.
Profissionais que assim atuam desconsideram não somente a possbilidade de alguma efetividade da medicina indígena mas tambem subestimam valores culturais das sociedades a qual estao tentando ajudar. O conhecimento local é desprezado e eles repetem a violencia colonialista de tentar impor um ideario tido como civilizado no lugar de ideias tidas como “primitivas”.
Eles não se perguntam se os membros das comunidades a que estão assitindo, frequentemente com uma postura de submissão diante do “mzungo” – palavra que em Swahili, lingua comum em paises do leste africano, designa o branco estrangeiro -, estão aceitando ou mesmo entendendo o que está sendo proposto. Posteriormente, quando os objetivos propostos não são atingidos, o fracasso é imputado à uma suposta mentalidade inferior da população assistida.
 No livro “ Anthropology in Public Health – Bridging Differences in Culture and Society ” (3),, Edward C. Green analisa o fracasso de um progrma  visando a redução da prevalencia de HIV positivos  em Moçambique. A Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), que liderou a luta contra o poder colonial e conquistou  a independencia do país  em 1975, assumiu o poder e se propoz a implantar uma política   norteada pelo chamado “socialismo científico”. Entre outros objetivos da tentativa de “ conscientização das massas” constava a meta de banir as crenças populares relacionadas a medicina tradicional indígena e outras tradições socio-culturais, como poligamia e ritos de iniciação.
Porém, a despeito da censura oficial, subversivamente as práticas tradicionais continuaram  como antes. Em 1989, após o 5th congresso partidario da Frelimo, o governo formalmente reconheceu tal política como um equívoco. No ano seguinte, devido a seus conhecimentos em antropologia aplicada na África, o mencionado autor foi convidado pelo ministro da saude a assessora-lo na definição de um papel para os praticantes da medicina tradicional indígena.
Outro autor do mesmo livro (3), Robert A Hahn (3), afirma que aqueles que interagem seriamente com outras sociedades  tem a obrigação moral de respeitar seus valores culturais e  sua organização social. Chama a atenção para a possibilidade de membros de uma comunidade rejeitar uma oferta de ajuda por não entenderem o que esta sendo proposto. Ou por entenderem a oferta mas não concordarem que o potencial beneficio seja prioritario para eles.  Nestas ocasiões muitos supostos benfeitores agem paternalìsticamente sem perceberem o quanto suas intervenções são moralmente questionaveis, particularmente em relação aos adultos das comunidades alvo.
Embora varios antropólogos o considerem anti-ético a antropologia tem sido usada tambem com objetivos militares. É o tema de uma reportagem da BBC realizada em 2007 que discutiu a atuação de profissionais que então trabalhavam para o exército americano no Iraque e no Afeganistão. O objetivo de tal atuação seria um  melhor entendimento dos processos de tomada de decisão e da gênese da formação de atitudes  nestas sociedades, obtendo-se assim mais elementos na definição de novas estrategias militares. (2)
A reportagem cita Roberto Gonzalez, professor de antropologia da San Jose State University, que afirmou que o Pentágono estava tentando  “armamentizar” * a antropologia. Ou seja, os antropólogos que prestavam tais serviços para  o exército Americano estavam entrando em choque com o preceito de que a disciplina não deve ser usada como uma ferramenta para o exercicio de poder sobre outras sociedades.
Um modelo etnológico de medicina e psicologia que realmente aceite o relativismo cultural como um contraponto ao etnocentrismo é uma importante ferramenta para a assistencia a saude. Pode propiciar mudanças que não causem uma ruptura brusca na identidade cultural das comunidades. 
A população compreende e aceita melhor uma intervenção quando esta é sentida como um processo de troca socio-cultural com o agente interventor e deste modo tal processo pode ser  mais enriquecedor para ambos os lados. Para alem dos atos normativos, o provimento de uma educação respeitosa com a cultura local é a melhor forma de fortalecer processos de mudança que sejam mais eficientes e menos traumáticos e tal ponto de vista ha muito já era sustentado por certos líderes ocidentais e africanos.
Em 1931, num seminário sob os auspicious do “Save the Children Fund”, varios delegados europeus defenderam a ideia de que ja era tempo de abolir o “barbaro costume” da circunsisão . Porem, a urgencia em se abolir tal tradição  socio- cultural por força de leis não foi completamente aceita pela maioria dos delegados presentes. Prevaleceu a proposta de que o mais importante seria o acesso a educação, o que habilitaria aquelas sociedades  a fazer escolhas entre  costumes a serem mantidos ou abolidos. (1)  
Em se tratando do trabalho clínico em saude mental, o levar em conta diferenças socio culturais é ressaltado pelo psiquiatra ugandense S. Musisi ao refletir sobre a ”interpretação cultural’ dos sintomas de PTSD (Post Traumatic Stress Disorders). O autor ressalta a importancia da linguagem metafórica e da linguagem corporal e defende, em alguns casos, a parceria com  os“ traditional healers”, ou seja, com os praticantes da medicina tradicional indígena. “Variáveis culturais apontam para a necessidade de se desenvolver modelos culturalmente eficazes no tratamento de emergencias humanitárias complexas em diferentes contextos. ” (6, tradução do articulista)
Discutindo a importancia da etno- psiquiatria na assistencia humanitária, Moro MR e Rigal J. alertam para a importancia dos parâmetros culturais como fatores de resiliencia para as familias e o grupos sociais. (5). Vale a pena lembrar aqui de estudos patrocinados pela Organização Mundial de Saude que evidenciaram, em países em desenvolvimento, a resolução mais rápida de crises psicóticas em pacientes  esquizofrênicos.
No Brasil , diferenças culturais e a profunda desigualdade social levam os trabalhadores na saude publica  a se defrontar com situações que requerem uma leitura antropológica. Estudos feitos com clientes de classes populares de grandes centros urbanos nas décadas de setenta e oitenta já demonstravam  diferenças na expressão da subjetividade em relação aqueles oriundos de classes mais privilegiadas. Foram observadas outras formas de manifestar o sofrimento psiquico que deixavam confusos os profissionais mais desavisados. Como exemplo, os estudos relativos aos portadores de “doença dos nervos”, ouseja,  aqueles pacientes que se apresentam com queixas subjetivas como um cansaço vago, dores migratórias, nervos que pulam ou vontade de quebrar tudo pela frente (7).
Os determinantes de tal forma de expressão subjetiva, que entre outros aspectos revela a carencia de um vocabulário introspectivo específico  para melhor expressar as emoções, estão relacionadas ao pertencimento a extratos sociais menos favorecidos que tem grande dificuldade  de acesso a bens culturais. Ha estudos demonstrando que o trabalho em grupos pode ser uma  ferramenta importante numa abordagem psicoterápica de tais pacientes. (8)
Portanto, a falta de percepção de variáveis consequentes a diferenças socio culturais pode criar importantes barreiras na comunicaçao com membros de uma comunidade a qual se procura dar assistencia a saude. O uso de conceitos oriundos da antropologia cultural pode ser de fundamental importancia, tanto para os agentes humanitários que atuam em paises estrangeiros, como para aqueles que atuam na saude publica de paises como o Brasil, onde se constatam importantes diferenças de expressão subjetiva nos pertencentes a extratos sociais menos favorecidos econômicamente.
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* Obs.: parece-me a melhor tradução para o neologismo “weaponise”.
                                               Bibliografia
1) Kenyatta, Jomo F.( 1938). Facing Mount Kenya, Kenway Publications., Nairobi, 2004, pages 133,131).
2) Fattahi, K., in BBC News, 16/19/2007
3) Hahn, Robert A., Ph.D., M.P.H. (1999). Anthropology and the Enhancement of Public Health Practice, in  Anthropology in Public Health – Bridging Differences in Culture and Society”. Oxford University Press, New York.
4) Green, Edward C. (1999).  Engaging Indigenous African Healers in the Prevention of AIDS and STDs, in Anthropology in Public Health – Bridging Differences in Culture and Society. Oxford University Press, New York.
5) Moro, MR, Rigal J. (2005).Child’s post-traumatic syndrome - Assessment and care. Bobigny: Association Internationale d’EthnoPsychanalyse. Available from:http//www.clinique-transculturelle.org/AIEPpsy_moro_rigal_ptsd.html.
6) Musisi S. (2005), War and Mental Health in Africa. Essentials of Clinical Psychiatry for sub-Saharan Africa: Masson.
7) Costa, Jurandir Freire (1987). A consciência da doença enquanto consciência do sintoma: a doença dos nervos e a identidade psicológica. Cadernos do IMS.RJ,IMS/UFRJ 1(1) 4-45, março-abril, 1987.
8) Alves, Paulo H.R.A.(1989 ). Diferencias socioculturales e imaginário grupal, en la clínica. Annals of the IVº Congress of CIR (International Center of Investigation in Group and Social Psychology), Madrid. 

* Texto traduzido e autorizado pelo autor.





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