A má gestão dos recursos naturais na Amazônia

Leitor questiona quem é culpado pela má gestão de recursos naturais da Amazônia.

Ronaldo Gomes Alvim*.


"Se viéssemos pagar pelo ecocídio que cometemos, certamente o Brasil não deveria pagar sozinho indo a prisão. Levaríamos conosco um grande número de países "bons" com a natureza".


O Brasil, nos últimos anos, tem sido acusado pelos meios de comunicação em massa e por governos do Norte de má gestão de nossos recursos naturais devido à deflorestação, queima e conseqüentemente incremento de espaços agropecuários em áreas de florestas tropicais.

Atrás de tudo isso, poderiamos perguntar até onde somos nós os únicos culpados diretamente pelos incêndios e, consequentemente, incapazes de gerenciar o maior banco genético do Planeta, a Amazônia.

No artigo ‘Amazônia em liberdade condicional’, publicado pelo ‘Jornal da Ciência’ (3 de junho, p. 7), Ennio Candotti comenta que se fosse instalado um tribunal internacional sobre os crimes devastação dos ambientes e patrimônios biológicos, na Amazônia, o país estaria certamente no banco dos réus.

Na verdade, devemos dar toda razão ao comentário feito, mas acredito que se viéssemos pagar pelo ecocídio que cometemos, certamente o Brasil não deveria pagar sozinho indo a prisão.

Levaríamos conosco um grande número de países "bons" com a natureza, não só por comprar parte dos produtos retirados de nosso subsolo, mas também pela remessa ilegal de ditos recursos a base de madeira ou à base de outras partes de vegetais e animais para a fabricação de medicamentos – que poderiam ser "compartilhados" conosco seus descobrimentos ou quem sabe os royalties pelas empresas farmacêuticas.

Porquê? porque os produtos ilegais acabam por gerar maior pobreza e maior destruição de nossas áreas.

No caso das madeiras, por exemplo, são levadas sem nenhum tipo de pagamento de taxas ou impostos e os produtos acabam sendo vendidos por preços que até dentro do nosso próprio país teríamos dificuldade de encontrar.

Em Porto Rico, enquanto estive trabalhando em uma Universidade, não eram raras as vezes que se falava, mesmo que de forma indireta, da apatia, falta de competência do desinteresse do governo brasileiro em administrar nossos recursos ou de criar programas concretos contra a destruição de nossas matas.

Se por um lado somos de verdade culpados por essa situação, não se deve deixar de acusar também aqueles que compram nossas madeiras sem prestar conta se dito recurso foi extraído de forma legal ou não.

Na maioria dos lugares que visitei havia a presença de alguma peça amazônica. E mais, como algo corriqueiro, propagandas de televisão e rádio ressaltavam a venda de portas de madeiras como Embúia, Jatobá, dentre outras, a partir de U$ 10,00 (dez dólares)!!

Na verdade, não é necessário ser um experto em produtos contrabandeados para saber sobre o real preço do produto comprado, pois se eles pegavam este valor e computamos os ganhos e as despesas do representante, do exportador, do transporte tanto a nível nacional como internacional, o corte e desmate não deverão passar de U$ 0,50 (cinqüenta centavos de dólar) pelo mesmo produto retirado pelo pobre agricultor que sem ajuda do Estado, derruba a floresta sem nenhum critério científico e, consequentemente acaba por afetar o solo, a biodiversidade e o microclima local.

Visto esta situação a partir de uma base filosófica e legal, se entende que aquele que compra produto roubado (ou ilegal) é condizente com a situação e por isso deve ser também considerado ladrão.

E quem sai ganhando com isso? o atravessador, o ilegal, o comerciante final seja no nosso país ou nos demais gerando pobreza, fome, destruição ambiental e desertificação cada vez mais acelerada na nossa Amazônia.

Desta forma, acredito que, se de verdade queremos preservar nossos recursos, devemos regionalizar ações, globalizar direitos e internacionalizar responsabilidades em prol não de um grupo restrito de pessoas, mas em favor da própria existência da raça humana.”

*Extraído do Jornal da Ciência do dia 11 de agosto de 2005. http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=30512 (com modificações)

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