O ignorando lixo das guerras

* autor: OTACILIO LAGE

Os impactos dos conflitos armados sobre a biodiversidade são tão sérios que a União Internacional para a Conservação da Natureza está elaborando o texto de uma convenção sobre a proibição de atividades militares hostis em áreas protegidas. Parece, contudo, que essa providência chega tarde para muitas áreas do planeta.

Depois de 12 anos, abre-se de novo o teatro de Guerra no Golfo Pérsico. Da primeira vez, toneladas de bombas foram regadas com precisão cirúrgica, monitoradas por alta tecnologia, o que facilitou a carnificina, tanto no deserto quanto nas cidades iraquianas. Vale lembrar que pelo menos 600 tanques de petróleo do Kuwait foram incendiados, deixando material poluente que, nos meses subseqüentes, matou 1,2 milhão de pessoas. Cerca de 11 milhões de barris foram despejados no mar, ao longo de 1,3 mil quilômetros de costa, causando um desastre ecológico de larga escala.

As devastações provocadas desde a guerra do Vietnã, há 30 anos, são incontáveis. Algumas realçam por si só. No Afeganistão, 20 anos de guerras reduziram à metade as florestas de coníferas (família dos pinnus) do País. Grandes áreas de pistache nativo (planta de polpa oleosa e de cuja semente se extrai condimento especial para sorvete) de Badghis e Takhar, na região Norte do país, foram praticamente dizimadas. Se não bastassem os efeitos dos ataques dos EUA e aliados ao regime talibã há um ano, há quatro anos a seca castiga o Afeganistão. Os 2 milhões de refugiados que retornaram ao país após a queda do antigo governo e mais um contingente de 1,5 milhão esperado este ano quase não têm água para beber ou têm apenas água poluída, onde ainda há reservas disponíveis, pois nas cidades apenas 12% da população tem acesso a água considerada segura. Nas áreas de conflito, os lixões e sucatas de guerra acumulam-se sobre o leito seco dos rios, prenunciando enchentes com grande potencial de contaminação, quando as chuvas se regularizarem.

Há 28 anos, o mundo respirava aliviado com o fim da Guerra do Vietnã, cujos efeitos maléficos pelo despejo maciço de desfolhantes – napalm, fósforo branco e herbicidas – ainda fazem vítimas em muitas regiões, como a do delta do rio Mecong. A agricultura racional é quase impossível de ser praticada: as terras “cultiváveis” são penteadas por 25 milhões de crateras produzidas por 13 milhões de toneladas de bombas norte-americanas. A destruição de florestas e mangues, tidas na época como abrigo de guerrilheiros levou à proliferação de insetos vetores de doenças tropicais, ao empobrecimento dos ecossistemas e perda de biodiversidade. Já no Camboja, com o fim da guerra, sucatas, armamentos e técnicas de construção de trincheiras e armadilhas passaram a ser utilizada para aprisionar ou matar animais – tigres, em especial – e alimentar o comércio ilegal. A pressão de caça, durante e após as guerras, por sinal, é uma constante: a venda de marfim subsidiou o abastecimento de rebeldes angolanos durante anos; a perseguição de elefantes e gorilas marca os conflitos do Congo e Ruanda. Mas esses números parecem não sensibilizar os Estados Unidos e seus aliados do Norte. Há lixo de guerra por toda parte, a maioria com perene poder de contaminação.

De um tipo de lixo de guerra, contudo, o mundo, pelo quadro atual, não deverá se livrar nunca mais, as minas terrestres. Desde a Segunda Guerra Mundial, mais de 400 milhões delas foram empregadas, 65 milhões apenas nos últimos 15 anos. Entre 80 milhões e 119 milhões esperam por suas vítimas nos campos de 70 países – a cada 20 minutos surge uma nova vítima. Para desativar uma mina gastam-se, em média, US$ l mil, residindo aí o problema. Elas já mutilaram mais de 250 mil pessoas em todo o mundo, com um custo de assistência médica e reabilitação estimada em US$ 750 milhões. Desde 1995, apenas 80 mil minas foram desativadas e, se considerarmos a tecnologia disponível hoje e o atual ritmo da limpeza de campo em todo o planeta, seriam consumidos 1,1 mil anos nessa tarefa. Haja utopia. Sem dúvida, as minas terrestres são o fruto mais amargo das guerras vividas ao longo do século passado em países africanos, asiáticos, europeus e da América Central, um lixo-símbolo de embates que consomem milhões de dólares e auferem pesadas perdas de vidas humanas no seu decorrer, como agora se prenuncia para o Golfo Pérsico, onde o Iraque, dono de uma reserva de 112 bilhões de barris de óleo cru, é alvo dos EUA e de seus aliados do G7 (+ Rússia), pela segunda vez em menos de 15 anos, numa insana busca pelo definitivo domínio econômico global.

O artigo foi escrito pelo jornalista Otacílio Lage ao jornal O Estado de Minas,
no dia 02 de março de 2003, página 11, seção Internacional.

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