Reflexões sobre Sociedade, Etica, Direito e Meio Ambiente

* Autora: Beatriz  Pires  Gomes


 “E impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida. No entanto, ao formular qualquer juízo geral deste tipo, corremos o risco de esquecer quão variados são o mundo humano e sua vida mental. Existem certos homens que não contam com a admiração de seus contemporâneos, embora a grandeza deles repouse em atributos e realizações completamente estranhos aos objetivos e ideais das multidões.
                                                                             Sigmund Freud.(1)
  O texto acima denota ser necessário refletir sobre a superficialidade da vida moderna, em que sujeitos empobrecidos em sua criatividade são destituídos da capacidade de reflexão e julgamento.
  As pessoas, em sua maioria, aceitam os argumentos expostos pela mìdia, pela moda, pelo “outro”, sem refletir sobre a razoabilidade do que lhes é imposto. O “porquê” das coisas, sempre presente no discurso das crianças, é substituído pela repetição sem indagação. Disso resulta a alienação daquele que compra compulsivamente, devora o bife de vitela, usa o casaco de pele de animal,  se espelha nas “celebridades”, diminuído em sua subjetividade, e dispensado da “árdua tarefa de pensar”
  E neste contexto de absoluto declínio de valores morais e sociais, que se propõe o presente trabalho de Ecologia Humana, em que se busca  entrelaçar conceitos de ?tica, Meio Ambiente,  Direito e. Sociedade.
 
 “O mal estar na Civilização”:
 Interessante obra do Psicanalista Sigmund Freud, intitulada “Mal Estar na Civilização”,   defende que o homem,  para viver em sociedade, renuncia a grande parte de sua felicidade, pois a civilização impõe restrições às exigências instintuais dos indivíduos.
 Neste livro, Freud declara que uma pessoa se torna neurótica por sua  incapacidade de tolerar as frustrações que a  sociedade lhe impõe, mediante estabelecimento de “exigências ideais” dificilmente alcançáveis. Nesse sentido, esclarece que:
Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização. Na realidade o homem primitivo se achava em situação melhor, sem conhecer restrições de instinto. Em contrapartida, suas perspectivas de desfrutar dessa felicidade, por qualquer período de tempo, eram muito tênues. O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de  segurança.” (2 )
Desta forma, superada a possibilidade de se alcançar um estado de “bem-estar social”, é necessário que as pessoas se recusem a serem “levadas pela maré”, pois é em sua  singularidade que cada um poderá eleger o que lhe é essencial na vida. Ao aceitar passivamente modificações que estão alterando a sociedade,  o indivíduo perde sua oportunidade de escolha. No momento em que se instala a consciência crítica é que se assume a responsabilidade como sujeito.
O homem moderno inviabiliza a evolução da civilização ao vincular sua  felicidade à aquisição de produtos. Sob esta ótica, o ser humano transforma-se em mero consumidor, empobrecido em sua subjetividade e destituído de ideais maiores como justiça, solidariedade, respeito à alteridade, liberdade, e demais premissas essenciais à construção de uma sociedade evoluída.
A construção de um mundo melhor passa, inexoravelmente, pela retomada de consciência de cada um, que em seu ìntimo deve refletir sobre a razoabilidade de suas escolhas. A posição ética do sujeito é que vai decidir entre uma ação de construir ou de destruir, proporcionando ao outro sofrimento ou felicidade, liberdade ou repressão.
Dando continuidade ao que até agora foi exposto,  pode-se progredir na concepção do que vem a ser uma escolha ética. Ampliando o alcance das ações humanas, de forma a abranger os demais seres vivos,  constata-se que devemos avançar. Podemos ter uma comportamento ético também com os “não humanos”. E por quê não?
Seria correto sermos justos, solidários e respeitosos em relação aos humanos e injustos, cruéis e desrespeitosos com os não humanos? ? razoável?
Por que restringir nossa capacidade de respeitar, proteger e cuidar aos humanos? Essa capacidade é  limitada?
E  razoável que um animal sinta dor? Por quê?
Podemos continuar “consumindo” o planeta e esgotando os recursos naturais, para realizarmos todos nossos desejos enquanto consumidores?
Somos mesmos os úunicos animais providos de racionalidade?                  
Buscando respostas a questões análogas, Leonardo Boff, em seu livro Ethos Mundial, defende a urgência de um resgate ético da humanidade mediante a substituição da Etica antropocêntrica por uma Etica ecocêntrica. Considera a biosfera como patrimonio comum de todos os seres vivos. Argumenta que a “Declaração dos Direitos dos Homens” teve o defeito de se restringir aos humanos. Defende ainda a atribuiçao de subjetividade aos animais, plantas e a Terra,  nos seguintes termos:
“Assim como outrora houve discussões acerca da atribuição ou não de direitos às mulheres, aos indígenas, e aos escravos, hoje verifica-se a mesma discussão acerca da atribuição ou não de direitos aos animais, às plantas e à Terra como Gaia”(3)
Conclui-se na esperança de que, o ser humano, sujeito racional, ao parar para refletir, saberá fazer escolhas éticas.
Finaliza-se o presente trabalho,  com magistral definição de Boff (4) acerca do  sujeito racional:
As características do sujeito racional são a criatividade, a capacidade de projeção e ordenação, a liberdade, a autonomia, a maioridade, a responsabilidade por sua intervenção no mundo e na história. Mais que auscultar a ordem da natureza, o ser humano se faz auscultador de si mesmo, de seus desejos e planos. Portanto transforma-se em criador de uma ordem da qual se sente responsável.”

      REFERENCIAS  
1        FREUD, Sigmund, “O Mal Estar na Civilização”. (1930), v. XXI, p. 81. Edição Standart Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud.Rio de Janeiro:Imago,1974
2        FREUD, Sigmund, “O Mal Estar na Civilização”. (1930), v. XXI, p. 137. Edição Standart Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud .Rio de Janeiro:Imago,1974
3        BOFF, Leonardo “Ethos Mundial” (1938), p. 88.  Rio de Janeiro: Sextante, 2003
4        BOFF, Leonardo “Ethos Mundial” (1938), p.33. Rio de Janeiro: Sextante, 2003

* Beatriz é estudande de especialização em Direito Ambiental no Centro de Atualização em Direito (CAD) em Belo Horizonte no ano de 2010. Este é um estudo para aprovação na disciplina de Ecologia Humana. 
 

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