Múltiplas formas de convivência


Autor: Arthur J. Almeida Diniz

Convivência é o modo espantoso da transmissão de valores, de modos de vida (modus vivendi), crítica benéfica ao modo de ser de cada um de nós. Fluxo contínuo de informações sobre o presente da experiência, interpretando o passado e planejando o futuro. Conviver: partilhar valores, modificar continuamente a percepção interna. Quando cessam nossos contatos com o outro, empobrecemos, desesperamos, desorientamos.
Condição essencial da convivência: lealdade. Significa a certeza de que a mensagem por nós recebida é algo que integra verdadeiramente o universo do outro. O grande risco da convivência é o perigo de distorções veiculadas pela ideologia, pela propaganda e pelo fanatismo.
Convivemos também com os meios de comunicação de modo bem mais envolvente do que podemos perceber. Ouvindo a vozinha macia no rádio, vendo a beleza escultural dos modelos na televisão, engabelando-nos a comprar mais traquitanas, soam, providênciais, as palavras de Joana de Angelis: “Estimulados pela propaganda bem elaborada, desejam comprar, mesmo sem poder, o que vêem, o que lhes é apresentado, numa volúpia crescente. Abarrotados uns com coisas nenhumas e outros vitimados por terrível escassez”. Formas depravadas de convivência, aliciando nossos instintos inferiores. Nossa intimidade é violada pelas imagens sensuais, isca dilacerante de inclinações que integram os porões de nossa sexualidade. Esta persuasão hablilíssima, verdadeiramente diabólica, foi estudada por Vance Pakard num belo trabalho (“os persuasores invisíveis”. Penguin Books). E este foi o discípulo do grande economista T. Veblen, autor da obra definitiva sobre o tema: “A teoria de classe ociosa” (ed. Abril).
Na trilha da persuasão do vazio, segue-se a propaganda política. A técnica é a mesma: sob a fantasia da convivência amável, os meios de comunicação ‘vendem’ seus candidatos. Fôssemos devassar, com seriedade, a intimidade desses ‘produtos políticos’ embalados pelas agências de publicidade, a maioria absoluta mereceria não a prisão mas o hospício. O grau de corrupção dos políticos da atualidade superou a delinqüência, atingindo a demência. Essa classe nefasta já foi castigada impiedosamente nas páginas imorredouras da “República”, de Platão (428-348ªc). a filosofia, mais do que simples especulação, é garantia de sanidade em todos os tempos.

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