Um plano B para a economia mundial

* Lester R. Brown



Os especialistas dizem, há muito tempo, que os Estados Unidos, com 5% da população mundial, consomem um terço ou mais dos recursos da Terra. Isto não é mais verdade. A China agora superou os EUA como o maior consumidor de recursos do mundo.

Entre as mercadorias básicas - grãos e carne, no setor de alimentos, petróleo e carvão, no energético, e aço, no industrial -, a China hoje consome mais que os EUA, com exceção do petróleo. O país consome quase o dobro de carne - 67 milhões de toneladas, comparadas com 39 milhões dos EUA. E mais que o dobro de aço - 258 milhões de toneladas, ante 104 milhões.

As perguntas importantes agora são: e se o consumo per capita desses recursos na China alcançar o atual nível dos EUA?; e em quanto tempo a renda per capita da China alcançará o nível dos EUA? Se a economia da China crescer 8% ao ano nas próximas décadas, sua renda per capita alcançará o atual nível dos EUA em 2031.

Se a essa altura o consumo de recursos per capita na China fosse igual ao dos EUA, seu 1,45 bilhão de habitantes consumiriam o equivalente a dois terços da colheita mundial de grãos. O consumo de papel da China seria o dobro da produção mundial atual. Digam adeus às florestas do mundo.

Se a China tivesse três carros para cada quatro habitantes - como nos EUA -, teria 1,1 bilhão de carros. Existem hoje no mundo 800 milhões de carros. Para oferecer as vias e espaços de estacionamento a uma frota tão vasta, a China teria de pavimentar uma área comparável à terra onde hoje cultiva arroz - 29 milhões de hectares. O país usaria 99 milhões de barris de petróleo por dia; o mundo produz atualmente apenas 84 milhões de barris por dia e talvez nunca possa produzir muito mais.

O modelo econômico ocidental - baseado no combustível fóssil, centralizado no carro, descartável - não vai funcionar para a China. Se não funciona para a China, não funcionará para a Índia, que, segundo as projeções, terá uma população ainda maior que a da China em 2031. O modelo tampouco funcionará para os outros 3 bilhões de habitantes dos países em desenvolvimento que ainda sonham o "sonho americano".

Numa economia global cada vez mais integrada, onde todas as nações competem pelo mesmo petróleo, pelos mesmos grãos e pelo mesmo minério de ferro, o modelo econômico existente tampouco continuará funcionando para os países industrializados.

UMA NOVA ECONOMIA

A sustentação de nossa civilização no início do século 21 agora depende da mudança para uma economia alimentada por energia renovável, de reutilização e reciclagem, com um sistema de transportes diversificado. O sistema atual - o plano A - não pode nos levar aonde queremos. É hora do plano B, de construir uma nova economia.

Amostras da nova economia já podem ser vistas nas fazendas eólicas da Europa Ocidental, nos tetos solares do Japão, na frota de carros híbridos que cresce nos EUA, nas montanhas reflorestadas da Coréia do Sul e nas ruas de Amsterdã, adequadas para bicicletas. Praticamente tudo de que precisamos para construir uma economia que sustente o progresso econômico já está sendo feito em um ou mais países.

Nesta reestruturação econômica, os maiores desafios virão da economia energética,
ao mesmo tempo em que o mundo se esforça para reduzir as emissões de carbono e a dependência do petróleo.

Ao longo dos últimos cinco anos, a produção de energia a partir do petróleo e do carvão aumentou 2% e 3% ao ano, respectivamente, enquanto a energia eólica e solar cresceu cerca de 30%.

A transição dos combustíveis fósseis para fontes de energia renováveis está em curso, mas, infelizmente, não avança rápido o bastante para estabilizar o clima ou desacelerar o esgotamento das reservas de petróleo.

Entre as novas fontes de energia - eólica, células solares, térmica solar, geotérmica, hidrelétrica em pequena escala e biomassa -, a eólica é a que se desenvolve mais rapidamente, indicando como será a nova economia energética.

Na Europa, que lidera o mundo rumo à era eólica, a geração de eletricidade pelo vento é suficiente para atender às necessidades residenciais de cerca de 40 milhões de pessoas. A Associação de Energia Eólica da Europa previu que, em 2020, cerca de 195 milhões de europeus - metade da população – poderão obter sua eletricidade residencial a partir do vento.

A energia eólica avança rapidamente pelos seguintes motivos: é abundante, barata, inexaurível, amplamente distribuída, limpa e benigna para o clima. Nenhuma outra fonte de energia tem essa combinação de qualidades.

Os EUA têm suficiente energia eólica aproveitável para satisfazer várias vezes as necessidades nacionais de eletricidade. A geração de energia elétrica eólica no país, que aumentou 35% no ano passado, está à beira de explodir, à medida que a alta dos preços do gás natural estimula o investimento nessa fonte de eletricidade mais barata. A China poderia facilmente dobrar sua geração de eletricidade só com a energia eólica.

Para o setor de veículos dos EUA, amplamente visto como um dos segmentos da economia energética mundial mais difíceis de reestruturar, a chave para reduzir rapidamente o uso de petróleo e as emissões de carbono é o carro híbrido, movido a gasolina e a eletricidade.


Os índices de eficiência de combustível da Agência de Proteção Ambiental dos EUA mostram que o carro novo médio vendido no país no ano passado percorria 22 milhas por galão, ante 55 milhas por galão do Toyota Prius, um híbrido de gasolina e eletricidade de porte médio.

Se, por razões de segurança petrolífera e estabilização climática, os Estados Unidos substituíssem sua frota inteira de veículos de passageiros por híbridos de gasolina e eletricidade supereficientes ao longo dos próximos dez anos, o uso da gasolina poderia facilmente ser reduzido à metade. Uma mudança no número de carros ou nas milhas percorridas não seria necessária.

Para além disso, um híbrido de gasolina e eletricidade com uma bateria de armazenagem adicional e capacidade de conexão à rede elétrica permitiria que os motoristas usassem exclusivamente a eletricidade para viagens de curta distância, como o transporte diário e as compras. Isso poderia cortar o uso da gasolina nos EUA em mais 20%, somando uma redução total de 70%.

O investimento em milhares de fazendas eólicas espalhadas pelos EUA para alimentar a rede com eletricidade barata permitiria que os americanos fizessem a maioria das viagens de curta distância com energia eólica, reduzindo dramaticamente as emissões de carbono e a pressão sobre os suprimentos mundiais de petróleo.

O uso de temporizadores para recarregar baterias nos períodos noturnos de baixa demanda, com eletricidade vinda de fazendas eólicas, custa o equivalente a US$ 0,60 por galão de gasolina, ou menos. Os EUA têm não apenas uma alternativa inesgotável ao petróleo, mas também uma alternativa incrivelmente barata.


TAXAR A DESTRUIÇÃO


A chave para a reestruturação da economia global é a reestruturação dos sistemas fiscais nacionais. Trata-se de baixar os impostos sobre a renda e aumentar aqueles sobre as atividades que destroem o ambiente.

Isso tem avançado mais rapidamente na Europa, onde países taxam atividades negativas, como emissões de carbono, geração de resíduos e carros dirigidos em cidades.

Um plano de quatro anos adotado na Alemanha em 1999 transferiu sistematicamente impostos do trabalho para a energia. Em 2001, o plano havia diminuído o uso de combustível em 5%. Também havia acelerado o crescimento do setor de energia renovável, criando 45,4 mil empregos até 2003 só na indústria eólica - número que, segundo projeções, chegará a 103 mil em 2010.

Em 2001, a Suécia lançou uma ousada transferência fiscal de dez anos destinada a transformar US$ 3,88 bilhões de impostos sobre a renda em impostos sobre atividades que destroem o ambiente. Grande parte dessa transferência - US$ 1 mil por domicílio - recai sobre o transporte rodoviário, incluindoaumentos substanciais dos impostos sobre veículos e combustíveis.

Cidades sufocadas pelos carros estão usando pesadas taxas de entrada para reduzir o congestionamento. A receita da taxa para os carros que entram no centro de Londres está sendo investida na melhoria da rede de ônibus, que transporta 2 milhões de passageiros por dia. O objetivo é uma reestruturação do sistema de transportes londrino para reduzir o congestionamento, a poluição do ar e as emissões de carbono e aumentar a mobilidade.

Os ambientalistas estão convencidos há tempos da necessidade de reestruturação da economia global, a fim de proteger os sistemas de apoio naturais e estabilizar o clima. O crescimento da China também está convencendo os economistas da necessidade de reestruturação.

Nossa civilização não é a primeira a seguir um caminho econômico insustentável no que diz respeito ao ambiente. Algumas civilizações anteriores em situação similar foram capazes de fazer os ajustes necessários no tempo disponível. Outras não conseguiram. Estudamos os sítios arqueológicos dessas últimas.

De todos os recursos necessários para a construção de uma economia que sustente o progresso econômico, nenhum é mais escasso que o tempo. Com a mudança climática, podemos estar nos aproximando do ponto sem volta. A tentação é reajustar o relógio. Mas não podemos. A natureza é o cronômetro.

Lester R. Brown é presidente do Instituto de Política da Terra e autor de Plan B 2.0: Rescuing a Planet Under Stress and a Civilization in Trouble, publicado pela WW Norton & Co.

artigo originalmente publicado no O Estado de S. Paulo - 05/02/2006

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