A ecologia política: solução para a crise da instancia política


* texto de Alain Lipietz publicado pelo site www.ecologiasocial.com
 

 
Desde os anos 80, um sentimento de impotência se espalhou pelo planeta, 
e mais particularmente nos países tendo passado por experiências  democráticas. 
O voto não parece mais ter sentido : uma vez eleitos, todos  os dirigentes, apesar 
de suas promessas, logo voltam para a " única política possível, a que é ditada 
pelas exigências da globalização ". Ora, para a  maioria, esta política só traz um 
cortejo de infelicidades : insegurança,  pobreza, exclusão…
Este sentimento de " esvaziamento do político " tem uma dupla dimensão:
Quanto aos conteúdos do que se chama " a política ", i.e., " o que se faz ", 
as estratégias e os objetivos parecem reduzir-se a uma infra política, à  simples 
optimização da competitividade que, por sua vez, traduz-se pelo  abandono de 
toda pretensão social.
Quanto às formas e aos domínios do que se chama "a política " - i.e., 
"como e com quem se age ", o que constitui a própria definição da cidade (polis) 
dos homens e das mulheres - eles parecem reduzir-se a uma coleção de indivíduos 
em competição mal contrabalanceada por regulamentos abstratos caídos do céu 
(de Bruxelas, da OMC) e, em geral, desfavoráveis.
A sociedade não é no entanto um mercado.O desejo, as necessidades de 
sociedades assumem a forma de reações identitárias. : integrismos no Terceiro 
Mundo, populismos autoritários e xenófobos no Norte.  A ecologia não é percebida 
como uma recusa da política por velhos hippies, uma atração íntima por flores e 
passarinhos ? Primeiro, vamos retificar esta imagem e redefinir o que é ecologia 
enquanto política. Em seguida, examinaremos como responde  à crise da política 
e de seus conteúdos, à crise da política e de suas formas.

O que é a ecologia política?
A expressão " ecolô " já indica por si própria a visão redutora e muitas vezes 
caricatural que tem da ecologia uma grande parte da opinião pública.  Do deboche, 
a opinião pública evolui para a perplexidade quando à ecologia se acrescenta a 
palavra política. Não há dúvida que a ecologia política, pelo menos aos olhos da 
opinião pública, ainda não adquiriu o estatuto de " noção clara e distinta ". O que é 
então ecologia? E ecologia política?

O que é ecologia?
Segundo o dicionário Le Petit Robert, a palavra aparece na segunda metade 
do século XIX. Termo utilizado pela biologia, em sua origem, a ecologia é uma 
disciplina científica. É a ciência que estuda a relação triangular entre indivíduos de 
uma espécie, a atividade organizada desta espécie e o meio-ambiente, que é ao 
mesmo tempo condição e produto  da atividade, portanto condição de vida daquela 
espécie. O ecologista que se interessa por castores se dedicará a analisar a 
relação deles ao meio em que vivem: a floresta e os rios, mas também as 
barragens  que constróem, ou seja, a natureza transformada por sua atividade. 
O ecologista se interessará ainda pela capacidade do sistema a assegurar as 
necessidades da  população de castores e sobre o modo como esta população 
se multiplica, se organiza,etc

Aplicada aos homens, a ecologia torna-se o estudo da relação da humanidade 
com o meio-ambiente, i.e., a maneira como se transformam mutuamente e como 
o meio-ambiente permite que a humanidade viva. Da mesma forma que o meio-
ambiente dos castores não se limita a florestas e a rios, o meio-ambiente dos 
homens não é apenas natureza selvagem, incluindo também a natureza 
transformada por êles. A ecologia humana é portanto a interação complexa entre 
meio-ambiente (o meio em que vive a humanidade) e o funcionamento econômico, 
social e, acrescentemos, político das comunidades humanas.

Esta é uma diferença significativa entre a ecologia da espécie humana e a ecologia 
das outras espécies animais. Com efeito, os homens são animais não apenas 
sociais, mas também políticos. No entanto, na origem da especificidade da ecologia 
humana, há uma outra característica que remonta a seus primeiros passos na face 
da terra. Atualmente, sabe-se que a capacidade de produzir instrumentos não é 
mais uma exclusividade dos humanos, uma vez que chimpanzés são capazes de 
improvisarem certos instrumentos, ainda que rudimentares. Os homens, ao 
contrário, não pararam de melhorar seus instrumentos e, consequentemente, sua 
capacidade de ação e de transformação do meio-ambiente, pela " domesticação " 
de plantas e animais desde a revolução do neolítico. 

Durante milhares de anos, tudo girou em torno da luta contra a fome e as 
intempéries. Viver o mais possível em harmonia com a ordem do mundo constituiu 
um ato de sabedoria daqueles homens do passado remoto. Mais perto dos tempos 
atuais, há quatro séculos, iniciou-se uma verdadeirareversão. Se, até então, o 
problema era de submeter-se à ordem da natureza, daí para frente a natureza é 
que deveria se ajustar aos desejos dos homens. Os incessantes progressos da 
ciência e de suas aplicações técnicas reforçaram cada vez mais o sentimento de 
que os homens eram " mestres e donos da natureza ". Durante a segunda metade 
do século XX, depois da expansão que se seguiu a 2ª Guerra Mundial, este 
movimento de emancipação chegou a seus limites. Os " milagres " da técnica e 
da tecnologia começaram a dar mostras de falhas ; acidentes " imprevisíveis " 
multiplicaram-se e seus efeitos alcançaram escala planetária (marés negras, 
Tchernobyl).  A importância que vem adquirindo estas novas inquietações levou a 
que alguns obervadores tentassem discernir os mecanismos econômicos e 
políticos geradores dosdesequilíbrios ecológicos. É sobre esta base conceitual e 
histórica que constituiu-se a ecologia política. Em seguida, aprofundou-se a análise 
crítica do funcionamento geral das sociedades industriais avançadas que, por sua 
vez, permitiu uma reflexão paralela sobre os meios a serem adotados para 
caminhar-se em direção de um outro modo de desenvolvimento.

Da ciência à política
A passagem da ciência à ecologia política introduz questões sobre o sentido 
doque fazemos, levando a uma série de outras perguntas : em que medida nossa 
organização social, a maneira como produzimos e consumimos, modificam o 
meio-ambiente? E, mais precisamente, como pensar a combinação, a 
interpenetração, a disposição destes diversos fatores nas ações sobre o 
meio-ambiente? Serão favoráveis os efeitos destas modificações sobre os 
indivíduos? Desfavoráveis? A ecologia científica diz-nos quais são os efeitos de 
nossos comportamentos e práticas ; esclarece-nos sobre o que está em jôgo. Aos 
homens, no entanto, cabe-lhes escolher o modo de desenvolvimento que desejam, 
em função de valores que evoluem no curso de debates públicos.
Levando a sério os desequilíbrios provocados pela atividade humana, a 
ecologia política vai interrogar-se sobre a modernidade e desenvolver uma análise 
crítica do funcionamento das sociedades industriais. Esta análise questiona um 
certo número de valores e de conceitos-chave sobre os quais se apóiam nossa 
cultura ocidental.

A natureza. Já evocamos o sentimento de poderio e de domínio sobre a 
natureza que desenvolveu-se progressivamente a partir do século XVIII. 
Uma exaltação narcísica que tendeu a construir, sob o modo de oposição,
até mesmo de antagonismo, a relação entre homem e natureza. Com isto 
alcançavam-se dois objetivos : a natureza servindo para valorizar os homens 
que, ao mesmo tempo, pareciam se ter destacado dela. Particularmente, 
a comparação entre os homens e outras espécies animais permitiam tornar 
manifesta a diferença, tornando implícita sua metamorfose. A depreciação 
da natureza banalizava as práticas mais degradantes a que era submetida, 
assim como os animais e mesmo os povos indígenas, que os europeus 
descobriam e julgavam " não-civilizados ". A ecologia política considera que 
foram amplamente ultrapassados os limites do aceitável e que chegou a hora 
de um questionamento geral de práticas e representações, já que não são 
independentes. Os homens fazem parte íntima da natureza, respiram-na e dela 
tiram sua alimentação, ainda que jovens atuais imaginem mais espontâneamente 
produtos derivados do leite em supermercados do que no campo. É claro que não
se trata de cair no extremo oposto, o de uma sacralização da natureza. A ecologia 
política questiona a oposição natureza / cultura, mas relativizando-a. Parece-nos 
bem mais fecundo interessar-se mais pela complexidade do mundo vivo do que 
pela oposição homem / natureza. Os homens e seu meio-ambiente não param de 
transformar-se mutuamente, sendo assim importante convencer-se que ambos 
estão envolvidos numa evolução interdependente (co-evolução).

O progresso. Depois de Hiroxima, de Tchernobyl e dos buracos na camada de 
ozônio, ou mais recentemente, da crise da vaca louca, devemos avaliar as 
consequências de um progresso que já não aparece nem como linear nem 
sem limites : o progresso técnico não é necessariamente sinônimo de 
emancipação humana e de melhorias do meio-ambiente. Para a ecologia 
política, não se trata no entanto de rejeitar a noção de progresso nem de 
mergulhar num catastrofismo antitécnico. Trata-se de dar o lugar certo ao 
progresso técnico, uma vez não há razão para considerá-lo " naturalmente 
"dotado de virtudes. Para os ecologistas, o desenvolvimento das capacidades 
humanas não constitui um valor em si. A tecnologia introduziu-se em nosso 
mundo quotidiano trazendo consigo novas vulnerabilidades, novas 
dependências. A técnica nunca conseguirá suprimir todos os riscos, 
provocando mesmo novos riscos. Depois de ter tentado domesticar a natureza, 
temos agora de aprender a domesticar o próprio progresso. O que supõe ter 
sempre em mente as duas faces do progresso: por um lado, solução para crises 
e, por outro, fator de cirses ecológicas. O progresso técnico diz-nos o que se 
pode fazer (OGM, por exemplo), mas não nos diz o que é bom ou mal. Não é 
porque, amanhã, a ciência e a técnica nos permitirão sem dúvida escolher o 
sexo, a cor e o cabelo de nossos filhos e de gerações futuras que a opção 
destas manipulações se impõem a nós. Para a ecologia política, a questão 
dos valores é independente das mudanças técnicas e prévia a sua implementação.

A responsabilidade. O poder das atuais tecnologias é de tal ordem que 
multiplicaram-se as consequências para o meio natural, para as outras espécies 
vivas, vegetais ou animais. Ainda que não ocorram acidentes ecológicos, o simples 
funcionamento de muitos sítios industriais produz efeitos nocivos para o meio 
ambiente. Basta pensar na criação de suínos na Bretanha ou nos diversos efluentes 
lançados em rios na França. A decisão de andar de carro ou de trem, o nível de 
calefação de nossas casas influem no clima. Degradamos o meio que nos faz viver. 
Há coisas milagrosas em nosso planeta, mas há também o horror. A beleza do 
mundo é um desses milagres ; se a sacrificamos, o que sobrará ? Este meio nos 
torna a vida possível, pode ser fonte de alegria, ou em outros termos, de alegria de 
estar no mundo. Este meio somos nós também que o produzimos, que o legaremos
a nossos filhos e aos filhos de nossos filhos. Ele é o berço, o domínio e a casa que
preparemos para sua acolhida. Desejar filhos, trazê-los ao mundo e não se 
preocupar com o mundo devastado que nós lhes legamos, que pena!

A solidariedade. O princípio da propriedade e o consequente poder econômico não
deveriam dar a seus detentores o direito de influir discricionariamente sobre a vida 
dos outros. Mas é assim que as coisas se passam à vista d'olhos. Por vezes, ainda
que de maneira indireta, embora mas não menos determinante, este poder se 
estende até um direito de vida ou de morte. Leva alguns ao fundo do desespero 
porque sentem-se completamente incapazes de encontrar um lugar na sociedade, 
de ganharem seu sustento, de viverem decentemente, seja porque desde muito 
jovens viram-se marginalizados, seja porque sofrem as consequências de 
demissõesaos 40 anos, quando reconversões tornam-se impossíveis e as 
obrigações familiares, esmagadoras porque impossíveis de serem cumpridas. 
Com o Direito e seufuncionamento implacável, seu caráter algo sacralizado, não 
há o risco de uma perda de sentido mais profundo? A riqueza dos indivíduos 
constitui-se sempre sobre a base da cooperação social. Um indivíduo isolado, sem 
laços com seus congêneres, não conseguiria sequer sobreviver. Se um indivíduo 
enriquece, ele deve seu enriquecimento a toda a cadeia de seus semelhantes que 
construíram o mundo onde ele nasceu e a seus contemporâneos que participaram 
direta ou indiretamente a seu enriquecimento. 
Isso não deveria levar a um direito de retorno que se traduziria num dever de 
solidariedade mínimo? Uma sociedade, que tende a abolir o princípio do dom 
implicando o contra-dom, não estará correndo o risco de se desfazer, de se 
decompor? A simples solidariedade, mas também a dívida direta, nos impõe de 
não permanecermos indiferentes a infelicidade de um continente inteiro. A África 
está exangue e não somosalheios a esta situação.

A autonomia. A responsabilidade é apenas aparente se não for acompanhada de 
autonomia, que implica reconquista, por indivíduos e coletividades, do contrôle de 
suas atividades de produção, de sua vida quotidiana e de decisões públicas. 
Trata-se de traduzir em atos um certo número de fórmulas : "meter a mão na 
massa", "participar", "ver as consequências de seus próprios atos". As implicações
destes atos ocorrem em níveis diversos : da empresa, da cidadania em plano local, 
regional e nacional.

Recolocar o conteúdo no centro da política
Os enunciados precedentes mostram uma evidência : a ecologia é portadora de
muitíssimos novos conteúdos, ou melhor, constitui um intenso apêlo para que haja 
interêsse por conteúdos. A ecologia fixa objetivos, redefine meios e estratégias. 
Coisas que pareciam ter desaparecido da " política " reduzida à competição pelo
poder entre homens e partidos intercambiáveis.
A esperança revolucionária sumiu do horizonte, o comunismo faliu e o projeto 
socialista decepcionou. Portadora de grandes ambições durante todo o século, a 
política debilitou-se muito nos dias de hoje. Não há mal em que a política torne-se 
mais modesta, mas sua atual impotência e seu enfraquecimento face à economia 
são extremamente perniciosos. Uma sociedade sem projeto político, entregue às 
forças do mercado, sugada na espiral do " produzir cada vez mais " só pode levar 
a um crescimento das desigualdades sociais e das cirses ecológicas. É portanto 
urgente de dar novamente sentido e conteúdo à política.

Um novo modelo de desenvolvimento : o desenvolvimento sustentável
Segundo a definição adotada pela ONU, desenvolvimento sustentável é o que 
permite satisfazer as necessidades das gerações atuais, começando pelos mais 
carentes, sem comprometer as possibilidades de que geraçõs futuras também 
possam satisfazer suas necessidades.
O que implica a idéia de desenvolvimento sustentável ? A idéia encerra duas
dimensões. Atualmente, supõe que este modo de desenvolvimento responda às 
necessidades de todos. E, a longo prazo, supõe que este modelo possa durar. O
desenvolvimento sustentável inclui também a idéia de redistribuição (ou de justiça
social), uma vez que propõe uma ordem para a satisfação das necessidades: 
começar pelos mais carentes.
Mas, como fazer? Como reorientar nosso desenvolvimento para que se torne 
sustentável ? Primeiro imperativo: economizar o fator Terra, dando prioridade a
tecnologias que economizam energia e, mais amplamente, que respeitem o meio
-ambiente. Segundo imperativo : implementar novas regulamentações, 
acrescentandoà proteção social a proteção do meio-ambiente. Para tanto, os 
meios existem. Estendem-se de medidas regulamentares (leis e normas), a meios
econômicos (eco-impostos, autorizações negociadas) passando por acordos de
autolimitação e códigos de boa conduta. Cada um desses instrumentos obedece a
uma lógica diferente. Alguns permitem que se reparem degradações; outros, que 
se indenizem danos causados por terceiros ; outros, ainda, que se previnam efeitos
nocivos pela dissuasão. Sem dúvida, a via do imposto dissuasivo é a mais
promissora. Duplamente promissora porque, ao lado de seu efeito protetor do 
meio-ambiente, também oferece à coletividade recursos novos podendo ser alocados
a outras políticas. Por exemplo, baixar o custo do trabalho no quadro de políticas de 
crescimento do emprego. Com isso, chegamos ao efeito redistributivo do modelo 
de desenvolvimento sustentável. Os mais carentes não tem meios de poluir e, 
frequentemente, são também os mais atingidos por poluições. Serão portanto os 
maiores beneficiários de uma reeorientação geral para o desenvolvimento 
sustentável. A curto prazo, podem ser penalizadas as classes auferindo renda pouco 
significativa. Para estas classes, restrições ao uso livre e gratuito do meio-ambiente 
poderão turvar a miragem de uma generalização do modelo da sociedade de 
consumo, do qual não percebem o caráter insustentável e perigoso para sua própria 
saúde. Às novas políticas ecológicas é portanto necessário acoplar reformas sociais, 
senão aquelas políticas não parecerão legítimas.
A longo prazo, e do ponto de vista do interesse geral, são evidentes as 
vantagens do desenvolvimento sustentável. Infelizmente, no entanto, é muito 
raro que se imponha o interesse da humanidade, a fórmula "depois de mim, 
o dilúvio" sendo muito mais adotada. Como fazer para que forças sociais e 
políticas se interessem pelo desenvolvimento sustentável? Certamente através 
de um intenso debate ideológico e cultural, visando modificar a percepção da 
escala dos riscos e das vantagens do desenvolvimento sustentável, fazer 
progredir os valores e normas da ecologia. Para além da política e de seus 
conteúdos, é a instância política, seu campo e seus métodos, que deve ser 
reconstruída.

Repensar a instancia política entre o global e o local
Os governos parecem incapazes de resolver tanto problemas quotidianos 
como os que têm dimensão planetária ; seja impedir demissões em alguma 
empresa, que aliás apresenta excelentes resultados econômicos, seja lutar 
contra o aquecimento da temperatura no mundo. Num momento em que
nãohá mais limites para o poder econômico e financeiro, o poder político 
continua dependendo amplamente do princípio da soberania dos estados.
A relação de forças encontra-se portanto não só desigual mas invertida. 
Para que a instância política readquira credibilidade e, portanto, meios de 
ação, é indispensável alcançar um novo equilíbrio.

"Pensar globalmente, agir localmente"
A mundialização e as fortes tensões que abalam os Estados-nação, quando 
não levama sua implosão, reforçam a pertinência desta palavra-de-ordem 
surgida entre os ecologistas dos anos 70.Pensar globalmente. Porque a 
ecologia política se apropria máximas que podem ser asdo humanismo em 
geral: "Sou homem e nada que é humano me é estranho" ; "Somos todos 
responsáveis de tudo e diante de todos, particularmente, de eu mesmo". 
Pensar globalmente corresponde a elevar-se ao nível de uma visão 
planetária, que o saber ecológico tornou possível. Visão do estado do 
planeta, de sua degradação contínua, do jôgo complexo de causas e 
consequências e, parte essencial deste jôgo, a atividade Humana sob suas 
diversas formas. Este é um aspecto essencial, o " contrôle da natureza 
"constituindo um fantasma que parece prudente de não evocar em demasia.
Mas, ao contrário, da atividade humana somos responsáveis e podemos, 
em todo casodevemos, esperar manter o controle.
Agir localmente. A vontade de encarregar-se do meio-abiente imediato, de 
agir por si, à escala de cada um. Contra o centralismo, contra a tecnocracia, 
é a revindicação de um direito : o de obter uma aproximação entre poder 
político e cidadãos, de regionalização, até de municipalização do poder 
político ou, melhor dito, de uma reapropriação da política sem delegação 
nem subordinação. A possibilidade de pensar a escala planetária suscita 
nossa responsabilidade local e deveres consequentes. O agir localmente 
permite que melhor se meça o que está em jogo e as consequências de 
seus próprios atos. Permite também que se avalie como, na ausência de 
ação, o horizonte é de infantilismo, de recriminação estéril e repetitiva que
perpetua o status quo. Poucos são os que percebem a que ponto as 
consequências de seus próprios atos, ínfimos a seus olhos, tornam-se 
enormes e mudam de escala quando são ampliadas pelo número de atores 
sociais envolvidos. E ainda que o soubessem, será que isto adiantaria muito? 
Quem levaria em conta estas aspirações? "Nosso modo de vida não é 
negociável", foi como o ex-presidente Bush reagiu às negociações da Eco-92, 
no Rio de Janeiro.

Agir globalmente, pensar localmente
Como responder a este cinismo e egoísmo senão através de leis globais, que 
empeçam os homens de serem nocivos em escala planetária? E, sendo 
necessário agir globalmente, é preciso convencer em lugares precisos,
através de acordos locais, que se aceitem leis globais. Agir globalmente,
pensar localmente, esta deve ser a devisade uma ecologia política pragmática 
e realista. Agir globalmente. Trata-se de fixar regras de uma ordem superior às
escalas tradicionais (em particular, o Estado-nação) e munir-se de meios para 
que sejam aplicadas. Trata-se de eliminar efeitos perversos derivados de certas
interações, de impedir condutas que parecem localmente vantajosas mas que, 
por sua acumulação, podem ter consequências desastrosas para o conjunto.
Resumindo, trata-se de estabelecer regulamentações para o jôgo cego dos 
egoismos e das concurrências mercantis, das relações de forças do poder
geopolítico, para privilegiar práticas úteis mutuamente. Pensar localmente. 
Este aspecto, parece-nos, é essencial. Não faltam teóricos, e principalmente na 
França, para pensar globalmente. Quanto a agir globalmente, i.e., elaborar 
tratados internacionais, com aditivos de leis nacionais e decretos de 
regulamentação, há legisladores, ministros e seus gabinetes, que sabem muito 
bem como o fazer. Os problemas só começam a aparecer quando se chega ao
nível da implementação local. As regulamentações só têm efeito quando cidadãos 
crêem em sua utilidade, estão convencidos de que têm sentido. Quando 
obrigações parecem justificadas. Em sociedades democráticas, esta justificação 
supõe a adesão ao princípio do interesse geral que, por sua vez, implica que local 
ou individualmente perceba-se suas vantagens.
Sem a adesão dos atores não se faz nada durável. É assim que entendemos 
a fórmula "pensar localmente". Para a ecologia política, é preciso agir para que se
amplie a tomada de consciência de efeitos distantes da vida de cada um, de modo 
a tornar justificáveis restrições impostas por leis. Trata-se de, pouco a pouco, 
amadurecer em comunidades locais a consciência de um destino comum do 
gênero humano, de necessidades comuns, de vantagens recíprocas. Trata-se ainda 
de agir politicamente para codificar regras ao nível internacional, que maiorias locais
estejam dispostas a aceitar.

Conclusão
Faz pouco tempo que somos 6 bilhões de seres humanos. De semelhantes, 
ainda   diz-se. Há no entanto uma enorme disparidade. Para constatar isso
basta que nos limitemos aos personagens valorizados pela mídia dentre a 
massa de anônimos. Pelo lado do horror, impera a abundância : homens do 
GIA, milícias sérbias na Bósnia e no Kossovo, os virtuoses das machadinhas 
no Ruanda. Outros homens chamam-se E. Levinas, P. Ricoeur, H. Jonas. 
Convidam-nos a manter relações humanas bem diferentes. É preciso um 
singular esforço de imaginação para considerá-los, uns e outros, como 
semelhantes. É grande a tentação de ver os primeiros como pré-hominídeos. 
Mas sabemos que os homens não são isso ou aquilo. São seres em 
constante transformação, construindo-se a si mesmos. As relações sociais 
das quais participamos, da infância até a velhice, desempenham um papel 
essencial nesse processo. Está em nossas mãos, consequentemente, o 
evoluir para uma humanidade bárbara ou civilizada. É isso que está em jôgo 
para a ecologia política. Quanto a nós, estamos convencidos que a ecologia
política está destinada a ter uma influência durável sobre a humanidade de
amanhã.

Alain Lipietz es un reconocido economista francés, que ha publicado abundantemente sobre economía de la regulación, economía y geografía. Es miembro de los Verdes de Francia y actualmente es diputado por ese grupo en el Parlamento Europeo. Resumido de una presentación en la reunion del grupo de ecología política de CLACSO, sobre "Democracia sustentáveis ? Roteiros para a Ecologia Politica latino-americana na mudança do século", Rio de Janeiro, 23 noviembre 2000; publicado en 2002 en "Ecología Política" (H. Alimonda, ed.), Clacso, Buenos Aires. Se reproduce en nuestro sitio únicamente con fines informativos y educativos.

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