Lima Barreto e o Código Florestal

"Lima Barreto e o Código Florestal

Texto escrito por André Marchesan - Promotor de justiça*


Hoje, ás vesperas de uma profunda modificação no Código Florestal Brasileiro, ressentimo-nos de um planejamento urbano-ambiental e de um sistema de previsão e gerenciamento de desastres naturais


" As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro inundações desastrosas. Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre varios pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, de muitas perdas de haveres e destruição de imóveis. 

De há muito tempo que a nossa engenharia municipal se devia ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos. Uma arte tão ousada e quase tão perfeita, como é a engenharia, não deve julgar irresolvível tão simples problema. 

O Rio, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar á merce de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral. Como está acontecendo atualmente, ele é função da chuva. Uma vergonha! Não sei nada de engenharia, mas, pelo que me dizem os entendidos, o problema não é tão difícil de resolver como parece fazerem constar os engenheiros municipais, procrastinando a solução da questão. 

O prefeito Passos, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio. Cidade cercada de montanhas e entre montanhas, que recebe violentamente grandes precipitações atmosféricas, o seu principal defeito a vencer era esse acidente das inundações. Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana,economica, financeira e social".

A cronica acima foi escrita por Lima Barreto e publicada originalmente no jornal Correio da Noite, no Rio, em 19 de janeiro de 1915. Hoje, completando exatos 96 anos e 4 dias, continua atualíssima, lamentavelmente, pois parece-nos que de nada serviu em termos de advertencia.

Quando a li pela primeira vez em 1995, exatos oitenta anos após, acreditava que o respeito á natureza, aliado a uma urbanização adequada, juntamente com um sistema de previsão de desastres minimizariam o problema, desatualizando a queixa do famoso cronista carioca. Ledo engano. De lá para cá, os desastres ambientais tem produzido milhares de vítimas, desvelando a falta de preparo do aparato estatal para lidar com tragédias e administrar a reconstrução das vidas dos sobreviventes.

Hoje, ás vésperas de uma profunda modificação no Código Florestal Brasileiro, que, dentre tantas alterações negativas, enfraquece significativamente a proteção que recai sobre as áreas de preservação permanete, especialmente quando situadas em zonas urbanas, ressentimo-nos de um planejamento urbano-ambiental e de um sistema de previsão e gerenciamento de desastres naturais.

Resta-nos acreditar na sorte, no ditado de que "Deus é brasileiro" e esquecer o que se escreveu quase um século antes, combinando com a natureza que não mais fuja ao nosso controle e que se ajuste ás novas metragens propostas para as áreas de preservação permenete, como se isto fosse possível.


* Veículo de informação - Jornal o Sul - Seção Caderno Colunistas
Edicao - Domingo 23 de janeiro de 2011
e-mail enviado por: Beatriz Pires Gomes

Nota do bloguista:
Quero chamar atenção ao texto devido ao prolongamento do sofrimento dos cariocas em relação as questões ambientais. Entra ano, sai ano, há enchentes, alagamentos, erosões, soterramentos, mortes, perdas de bens... e nossos políticos saem na televisão comentando que o problema é da gestão anterior e que farão de tudo pra resolver a situação... o próximo fala o mesmo e assim vai. Ao povo, resta ficar perplexo com a situação. 

Parece que temos que acostumar com estes problemas e rezar para que não sejamos acometido por estas catástrofes. A ética e o respeito ao povo que votou no político parece não ter valor. somos para eles a fonte de perpetuação no Poder de corromper e serem corrompidos.

Como então alcançar o progresso e consequentemente a sustentabilidade? na verdade não sei. Com um povo ignorante, que pouco lê e se interessa por questões simples do cotidiano relacionados a sociedade e entorno físico-natural, entender, mesmo que superficialmente, das relações entre ação e reação socioambiental quando elegemos políticos de índole inapropriada ou por por ideologia futebolistica ou até mesmo um palhaço engraçado para nos representar como aconteceu recentemente no Brasil, o que podemos esperar de verdade? e o pior, e quando chegam ao palanque do Congresso Nacional e descaradamente falam que chegaram lá "para aprender" como falou Romário. Que vergonha!!!

Oras!!! aprender no Congresso??? porque não fez isso na escola? e o pior, como colocar alguém pra servir a sociedade para APRENDER num local que deveria saber o que é lei e qual a função social do político??? 


Resultado: Infelizmente continuaremos a ver o Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul vão continuar sofrendo as calamidades e o Nordeste sofrendo com as estiagens enquanto não conseguirmos mudar nosso paradigma político. 
Ronaldo Gomes Alvim 

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