O refri, a tora e você

Enquanto a gente almoça um bifinho suculento, passeia de carro e mora no conforto da casa própria, o pau tá comendo na floresta. Literalmente. A madeira ilegal da Amazônia que o sul maravilha compra na forma de móveis, objetos de decoração, carne, refrigerante em latinha, energia elétrica, casas e apartamentos tem, na verdade, uma relação ampla e intrínseca com o sonho de consumo de quem mora nas cidades. Por sonho de consumo, entenda menos necessidade e mais status. E viva o boom da economia brasileira.
Muito provavelmente, meu liquidificador e minha bicicleta tem madeira retirada ilegalmente de áreas de conservação ambiental e de terras indígenas. Porque precisam de carvão, que vira ferro e que por fim, vira aço. A coisa funciona de um jeito simples: fiscais de órgãos ambientais que atuam em conluio com o crime emitem uma licença a partir de documentação de aparência legal. Daí, o dono da terra manda cortar tudo e a madeira que não serve para construir prédios e fazer móveis vai para carvoaria. Quem queima a madeira trabalha como escravo.
A indústria da carne ocupa 80% das áreas desmatadas na Amazônica e o futuro pasto é adquirido com baixo custo graças à ocupação irregular de terras públicas, a grilagem. O que sobra de madeira é vendido para serrarias e o gado é vendido para frigoríficos que abastecem com carne as gôndolas dos supermercados. Grandes redes de mercados aderiram a um pacto contra o desmatamento ao comprar carne de fornecedores que não derrubam floresta.
Espera aí, tem a soja. Os donos “limpam” a terra ou ocupam terrenos já desmatados para instalar a lavoura. Pecuária e outras atividades são obrigadas a se deslocar para novas áreas. Abrem-se estradas para escoar o grão, isso atrai madeireiros e mais destruição acontece. Sem floresta na beira dos rios, o ciclo da água, perfeito em sua forma e função, vai pro beleléu, afetando a biodiversidade e a vida das comunidades tradicionais. A soja é exportada para Europa e Estados Unidos para produzir ração animal e alimentos que chegam aos supermercados em todo o mundo. O grão já transformou 1,2 milhão de hectares da floresta amazônica em plantação, mudou o clima e reduziu as chuvas. Em 2010, a região viveu a pior seca da história e alguns dos principais rios ficaram 15 metros mais baixos.
Agora dá uma olhada nessa imagem de satélite noturna do Brasil. O brilho mora na costa toda, mas o diamante está no sudeste. O desperdício de energia nas hidrelétricas e linhas de transmissão sucateadas, nas grandes cidades, nas fábricas, escritórios e nas casas tem relação direta com a madeira retirada sem cuidado na Amazônia. Porque a estratégia do governo para gerar a energia necessária ao crescimento do país é inundar florestas e persistir num modelo de desenvolvimento econômico baseado na extração de matéria prima para exportação, sem nenhum beneficiamento. Leia: alumínio, aço e madeira. As fábricas de aço e alumínio consomem 30% da energia gerada no Brasil e a maioria está na Amazônia. E o mercado consumidor – da latinha de refrigerante aos apartamentos – está em São Paulo. Calcula-se que o estado paulista é o maior consumidor de madeira nativa do mundo, recebendo 5,6 milhões de metros cúbicos, ou 20% do que sai da floresta para obras de infraestrutura e na explosão imobiliária. Entre 43% e 80% dessa produção tem origem ilegal. Nas obras da Copa do Mundo de 2014, 98,5% do orçamento de R$ 23 bilhões sairão dos cofres públicos. O setor público tem ou não tem poder de barganha para mudar procedimentos e promover ações sustentáveis?



A madeira não é a vilã da história, é um recurso renovável, importante para muitas atividades, que precisa de manejo sustentável para valorizar a terra e suas riquezas, melhorar o aproveitamento da madeira e reduzir o custo da exploração e os danos à floresta. A certificação e o rastreamento garantem que toda a cadeia da madeira, desde a origem legal até o consumo, seja feita sob critérios socioambientais sustentáveis. Para ir mais fundo no assunto, recomendo o recém lançado “Madeira de ponta a ponta – o caminho desde a floresta até o consumo” (vide arquivo), um trabalho investigativo e pedagógico essencial para divulgar e promover o tema, fonte de muitos dados desse texto.
E pra quem mora na selva de pedra, que diferença isso faz? Presta atenção: a gente só não vive num deserto graças às 600 bilhões de árvores da Amazônia. Elas evaporam 20 bilhões de toneladas de água por dia na atmosfera e esse suor da floresta cria um rio invisível e flutuante. Ele é o único responsável por regular a temperatura e umidade da América do Sul. Se você acha que não tem nada a ver com isso, então vai morar no Kalahari.

Por Tatiana Achcar . 31.03.11 - 13h46

Publicação: Yahoo (com alterações)

Nenhum comentário:

Postar um comentário