Carta aos “meio” ambientalistas

de: Marcelo Cardoso de Sousa (Instituto Amuirandê)


Antes, objeto de estudo e discussão entre acadêmicos e estudiosos cientistas, a temática ambiental era restrita às instituições de pesquisa e passou despercebida, ignorada e desvalorizada por parte da sociedade ao longo de vários anos.

Assuntos relacionados ao meio ambiente, se tratados há pouco mais de vinte ou trinta anos, eram vistos sem muita importância, uma vez que o número de especialistas ou pessoas interessadas e comprometidas com o tema talvez não passasse de meia dúzia de abnegados.

Na última década, entretanto, o assunto ganhou evidência e passou a ser alvo de preocupação de boa parte da sociedade, desde leigos, cidadãos comuns, até especialistas das mais variadas profissões.

A presente carta é, assim, direcionada aos cidadãos preocupados com o meio ambiente, que se multiplicaram nesse período. Pessoas que, por consciência, comoção, sensibilidade, despertar vocacional tardio, modismos e oportunismos se autointitulam ambientalistas, ou, simplesmente, protetores da natureza. Neste texto, eu os considero como “meio” ambientalistas.

É certo que, graças ao espaço que as questões ambientais obtiveram e vêm obtendo na mídia, muitos problemas foram divulgados, muitas preocupações foram adquiridas e muita repercussão foi concebida. Foi despertada uma consciência para a importância do meio ambiente, foi mostrado que somos partes integrantes do sistema e que somos responsáveis pelas gerações futuras.

Esse espaço midiático, porém, abriu precedentes para uma leva de informações distorcidas, parciais, tendenciosas, errôneas e pouco relevantes que talvez tenham desviado a atenção das raízes dos problemas, que deveriam ser conhecidos por todos. Problemas ambientais importantes têm estado fora de foco diante de campanhas promocionais de governos, instituições, empresas e indivíduos que direcionam os holofotes para temas ambientais menos urgentes ou que tratam a questão como simples objeto de marketing.

Soma-se, a isso, a ausência de jornalistas embasados e conhecedores das questões ambientais no estado, que pudessem argumentar criticamente sobre o assunto. O que se vê, em grande parte, é uma imprensa que, ao tratar das questões ambientais, privilegia, em muitos momentos, discursos rasos e desqualificados, além de muitas vezes replicar releases, sem atentar para a consistência das notícias. Não há críticas; interesses ideológicos não são discutidos e muito menos é observado o merchandising feito em nome da proteção da natureza!

Neste dia 5 de junho, dia mundial do meio ambiente, muitas comemorações pontuais, simbólicas, serão realizadas: distribuição e plantio de mudas, caminhadas ecológicas, passeios de bicicleta, limpeza de praias, oficinas de reciclagem, abraços a rios, distribuição de panfletos, manifestações sobre o código florestal, adoção de bichinhos, apresentação de teatrinhos, dentre outras.

Isso tudo é muito bom! Mas, que tal racionalizarmos um pouco mais para as questões concretas do nosso estado?

Será que o poder público tem proporcionado o que prega a constituição para a promoção de um meio ambiente equilibrado para todos, incluindo planejamento urbano, saneamento, saúde, segurança e educação de qualidade para toda a população? Será que os nossos órgãos ambientais têm de fato assegurado a conservação, gestão e proteção dos recursos naturais, dos nossos rios e das nossas matas mais importantes, com independência e lisura? Será que a educação ambiental tão propagada tem sido ministrada por pessoal capacitado, sem interesses escusos e de modo a permitir o exercício da cidadania e uma visão integral dos problemas sociais e ambientais? Será que a imprensa tem estado atenta e tem sido investigativa ao cobrir ou divulgar os temas ambientais do nosso estado?

Apelo para a reflexão sobre esses pontos e para que os “meio” ambientalistas acima rotulados não se apoquentem nem se sintam desqualificados, pois alguns políticos, prefeitos, secretários, assessores, professores, jornalistas, estudantes e profissionais diversos também são “meio” ambientalistas. Contudo, em breve, quando realmente cumprirem o seu papel com consciência, compromisso, desprendimento e lucidez, receberão a outorga e serão promovidos ao título máximo de “ambientalistas preocupados e protetores do planeta”, tão em voga hoje em dia. Assim sendo, a sociedade e o ambiente inteiro vão agradecer e festejar o dia de hoje!

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