Entre o antropocentrismo e o biocentrismo: colisão ou aproximação?

EDITORIAL

Between  anthropocentrism  and  biocentrism:  opposition  or  approximation?
Entre  el  antropocentrismo  y  el  biocentrismo:  ¿colisión  o  aproximación?

O biocientista  contemporâneo  há  tempos  passou  a  questionar  o  antropocentrismo  –  situação  na  qual  o  homem  se  faz o  protagonista  do  mundo.  As  exigências  ditadas  pelo  próprio  percurso  do  conhecimento  levaram  o  homem  de  ciência  a  se aproximar  do  biocentrismo  –  situação  na  qual  o  homem  consta  apenas  como  um  elemento  a  mais  na  natureza.
Aqueles que ainda se ancoram no antropocentrismo alegam, dentre outros argumentos, que o próprio arcabouço ético  de  suas  práticas  só  se  justifica  levando  em  conta  o  homem,  único  ser  a  agir  de  modo  ético-moral.  Mas  mesmo  nesses vislumbra-se uma atenuação da, antes, arrogante posição antropocêntrica. Sobressai-se atualmente todo um senso de reverência científica, inclusive para com os deveres e responsabilidades inerentes às questões ambientais, por exemplo, mesmo que  ainda  careçam  de  melhor ajuizamento.  Colabora para  isso  a  razoável  certeza  de  que  a  espécie  humana  tem
claudicado  na  construção  de  seu  futuro  no  planeta.
Aqueles que defendem o biocentrismo mais literal  rejeitam  o tratamento  diferente dado aos seres  vivos humanos, em detrimento daquele dado aos não humanos. Lançam-se, pois, na direção de uma percepção ecológica da ética, uma percepção  que  dilui  o  homem  na  natureza.
Faz-se  de  certa  clareza  a  consonância  de  diversas  outras  vertentes  e  outros  cofatores,  como  a  cultura,  a  geopolítica  e  a socioeconomia  das populações, todos  com  grandes implicações  para o presente tema.  Decerto que caiu  por terra  a ideologia  segundo a qual a natureza poderia ser explorada indefinidamente  e que os eventuais problemas daí advindos seriam  facilmente  resolvidos  com  o  desenvolvimento  da  tecnologia.
Diante disso, abriu-se o caminho para pensamentos e procedimentos biocêntricos alternativos, como a conservação (conservar  os  limitados  recursos  naturais  para  as  gerações  futuras)  e  a  preservação  (preservar  o  patrimônio  natural  para  o crescimento  e  realização  dos  seres  humanos)  da  natureza.  É  assim  que  se  sobressaem  algumas  posições  nas  discussões  de cunho  ético  frente  aos  usos  e  estudos  de  seres  vivos  na  natureza.  Citemos,  brevemente,  três  delas.
A  primeira  posição  é  defendida  por  T om  Regan,  e  discorre  sobre  o  direito  moral extensivo  aos  'animais  não  humanos'. (1)
Regan   define  todos  esses  seres  como  'sujeitos  de  vida'  e,  nessa  perspectiva,  merecedores de  respeito  por  direito  e  justiça, jamais  por  compaixão.  T odos  os  mamíferos,  por  exemplo,  a  partir  do  início  de  suas  vidas,  atendem  a  esse  critério.
Outro pensador , o filósofo Peter Singer , ancora a sua defesa nas sensações de dor e prazer dos animais. Segundo (2) Singer ,  aquele  que  experimenta  o  sofrimento  deve  ter  direitos  morais.  A  capacidade  de  falar  e  a  racionalidade  não  seriam atributos  obrigatórios  para  definir  aqueles  que  devem  merecer  cuidados  morais.
Bem  mais  radical  é  o  ponto  de  vista  apoiado  por  Paul  W .  T aylor ,  ampliando  a  sua  defesa  para  além  dos  mamíferos  e  do (3) mundo  animal.  Segundo  esse  estudioso ,  basta  que  um  organismo  tenha  certas  características  (células,  processos funcionais,  relações  com  outros  organismos  e  ritmos  próprios  de  crescimento  e  desenvolvimento)  para  merecer  tutela  ética e  moral.  Poucos  hoje  acreditam  na  viabilidade  dos  princípios  defendidos  por  T aylor ,  mas  ele  tem  seguidores.
A  Revista  Pan-Amazônica  de  Saude  constata  que  esses  e  outros  posicionamentos  têm  sido  colocados  aos pesquisadores no dia a dia de suas tarefas. Lançando mão de princípios, diretrizes, resoluções ou leis, os editores e as comissões  de  ética  tentam  encontrar  o  razoável.  De  um  lado  ou  de  outro,  onde  está  o  bom  senso  e  onde  está  o  exagero?

REFERÊNCIAS
Manoel do Carmo Pereira Soares
Editor Científico da Rev Pan-Amaz Saude
Instituto Evandro Chagas/SVS/MS, Belém, Pará, Brasil
1  Regan  T .  The  case  for  animal  rights.  California:  University  of  California  Press;  1983.  310  p.
2 Singer  P ,  Xavier  A,  tradutor .  Vida  ética.  Rio  de  Janeiro:  Ediouro;  2002.  420  p.
3 T aylor  PW .  Respect  for  nature:  a  theory  of  environmental  ethics.  New  Jersey:  Princeton  University  Press;  1986.  331  p.
9 Rev Pan-Amaz Saude 2011; 2(4):9
doi: 10.5123/S2176-62232011000400001


Fonte: http://revista.iec.pa.gov.br

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