A insustentabilidade do desenvolvimento sustentável

por: Paulo Roberto* 
Hoje, após meu lanche matinal, parei um pouco no tempo para tentar caracterizar o artigo que recebi do Prof. Silva Júnior, pois temos muito em comum nas suas reflexões do conhecimento, notadamente nas questões ambientais, o qual tem uma postura muito madura e realista.
Vimos que o difícil entendimento que o progresso e o desenvolvimento resultam na depleção de fatores vitais, como a fertilidade do solo, equilíbrio hidrológico e reservas de combustíveis fósseis, deflagrou um modismo denominado desenvolvimento sustentável que, não somente vem provando ser inatingível, mas também uma fonte de confusões de interpretações.
Em geral sabemos que, a economia orgulha-se de uma prática que otimiza a alocação de recursos limitados, ao passo que a ecologia prima em demonstrar como os recursos limitados regulam populações de plantas e animais. Ambos entendem que o fator mais raro na equação é também o mais importante. Dado essa semelhança, era de se esperar que economistas e ecologistas entendessem os dois modelos, mas suas visões de mundo são fundamentalmente diferentes.
Sabemos que a sustentabilidade foi adotada por ambos para descrever o uso ideal de recursos, mas esse termo aparentemente unificador significa coisas diferentes. Para os ecologistas, sustentabilidade significa o uso de recursos que permitirá a sobrevivência dos ecossistemas em todos os níveis, que compreendem a vida silvestre dos animais e vegetais, e os processos naturais, como o ciclo de nutrientes, drenagem dos solos e o próprio clima. Implícita está a noção que as espécies não serão extintas, o equilíbrio de populações será mantido e os recursos naturais serão gerenciados para não exaurirem.
Grande parte dos ecologistas concordaria que certas atividades preservacionistas que limitam o desenvolvimento econômico de países pobres são moralmente questionáveis e difíceis de ser implementadas. Em contraste, o modelo econômico vigente interpreta a sustentabilidade como uma alocação de recursos que deixa as gerações futuras em condições não piores que as das gerações atuais. Advogam uma premissa de que a engenhosidade humana eventualmente os identificará, o que permite que um recurso seja substituído por outro desde que não implique declínio econômico.
Por exemplo, enquanto a madeira em pé de uma floresta é um recurso potencial, como também o solo, é legítimo cortar todas as árvores desde que a terra proporcione um retorno agropecuário ou urbano de igual ou superior valor. Também seria legítimo comercializar toda a madeira dessa floresta para produzir uma riqueza, fruto de um investimento, como recurso monetário utilizável por gerações futuras. Recursos não-renováveis, como o petróleo, podem ser explorados até a sua última gota se uma fonte alternativa viável, seja energia eólica, termoelétrica, solar, fusão nuclear ou álcool, for identificada.
A teoria econômica desenvolveu-se independentemente do pensamento ecológico e parece uma surpresa cruel para alguns que, na natureza, os recursos são limitados e não substituíveis. Plantas necessitam de fosfato para se desenvolver, e o nitrato, potássio ou água não podem ser utilizados como substitutos. Os ecossistemas são, por definição, substituíveis, ou seja, um ecossistema natural que é cortado pode ser substituído por um ecossistema agrícola. Isso não significa que a substituição seja um desenvolvimento sustentável, pois uma paisagem em erosão, com o ciclo de nutrientes rompido e o microclima alterado não é uma substituição adequada para a floresta original.
Outra distinção precisa ser feita entre desenvolvimento econômico e crescimento econômico.  O desenvolvimento econômico pode ser atingido por meio de educação, saúde, segurança e melhor distribuição de renda e crescimento econômico requer a exploração de recursos naturais para a expansão de indústrias e agricultura e, por definição, deixará menos recursos para a natureza. Assim, enquanto o desenvolvimento econômico pode ser sustentável, o crescimento econômico não necessariamente.
É nessa linha de pensamento que estamos perdendo o bioma cerrado para as megaculturas de exportação ou commodity (soja e milho ) e agora mais do que nunca a cana-de-açúcar. É vendida uma ideia de substituição econômica inteligente da gasolina, pela qual o álcool seria de queima mais limpa ou ecologicamente mais viável. Entretanto, aumentar o consumo de álcool significa aumentar as áreas plantadas para garantir a demanda e, para aumentar as áreas plantadas, os biomas naturais como o cerrado e o próprio amazônico do Brasil devem ceder espaço. Acrescente-se a isso os recordes crescentes de produção de grãos para exportação contrastando com um programa que considero assistencialista interno, de combate à pobreza e à fome.
De qualquer forma, se observarmos com mais carinho, vimos que nenhuma técnica comercialmente viável de produção agrícola é completamente sustentável. Cedo ou tarde, combustíveis fósseis serão utilizados para as colheitadeiras, os caminhões que carregam a produção ou as bombas que mantém a irrigação. A boa agricultura está centrada no cuidado que temos de ter com o solo e naturalmente com a proteção dos recursos hídricos, mola mestra da vida em todos os sentidos. O solo precisa ter uma boa estrutura, estar livre da erosão e ter decompositores vivos e nutrientes adequados. Da mesma forma, os mananciais hídricos precisam da proteção das matas ciliares para seus ciclos naturais, fazendo evitar o carreamento excessivo de sedimentos para os rios.
Dentre todos os debates ambientais atuais, observamos ser raro ver qualquer ação pública ou questionamento sobre essa situação, e vimos que, em algumas bacias hidrográficas, o desmatamento deixa uma faixa ciliar de uma ou duas árvores por quilômetros. Tudo em nome do modelo produtivo que, em breve, nos deixará saudades notadamente do nosso bioma cerrado.

Texto extraído da A Tribuna Mato Grosso digital. 

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